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Argumentar é preciso, já dizia Aristóteles! E hoje?

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Quinta-Feira, Dia 18 de Maio de 2017

 Colaboração | Nicholas Merlone | Justiça Em Foco

É com enorme satisfação que trazemos para a leitora, para o leitor do Justiça em Foco, em nossa coluna, algumas reflexões sobre a Arte de Argumentar propostas pela autora Maria do Carmo Carrasco, com quem tivemos o privilégio de frequentar um curso na Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), no início deste ano de 2017. Pois bem, seguem apontamentos da autora:

Para mostrar o quanto é importante nos dias de hoje saber argumentar em várias situações, apresentar um pouco de história é fundamental e muito interessante!

O período anterior a Sócrates foi caracterizado pelo interesse no próprio homem e nas relações desse com a sociedade. Essa fase inicialmente foi marcada pelos sofistas, professores (sábios) viajantes que, por determinado preço, vendiam ensinamentos práticos de filosofia. De acordo com o interesse do aluno davam aulas de eloquência e conhecimentos úteis para o sucesso nos negócios.

Muito semelhante ao que tem acontecido nos dias de hoje. Uma necessidade, quase que inesgotável, de interesse em conhecimento para alavancar os negócios e principalmente para desenvolver rapidamente uma performance comunicacional adequada de acordo com as necessidades. Na área jurídica a habilidade de comunicação (palavra falada e escrita) é fundamental.

Mas, voltando a história: nesse momento histórico, os mais ambiciosos sentiam necessidade de aprender a arte de argumentar em público para manipular o conflito durante as assembleias públicas fazendo prevalecer seus interesses individuais e de classe. 

As aulas ministradas pelos sofistas tinham como objetivo o desenvolvimento do poder de argumentação, das técnicas da retórica e oratória, do conhecimento de doutrinas divergentes. Buscavam transmitir raciocínios e concepções utilizando um jogo de palavras que seria aplicado na arte de convencer as pessoas e driblar as teses dos oponentes.

Segundo esse raciocínio, não haveria uma verdade única, absoluta. Tudo seria relativo ao homem, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias.

Sócrates, então, serve como um marco para a Filosofia, pois apesar de seu estilo de vida assemelhar-se ao dos sofistas, não vendia seu conhecimento; ao contrário, distribuía-o em praça pública, conversava com os jovens e dava demonstrações de que era preciso unir a vida concreta ao pensamento.

“Conhece-te a ti mesmo”, era a recomendação básica de Sócrates a seus discípulos. “Só sei que nada sei” era, para Sócrates, o princípio da sabedoria. Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores para que reconstruíssem suas próprias ideias. O que é o bem? O que é a justiça? São exemplos de algumas perguntas feitas por ele. Sócrates procurava atingir a verdade por meio do diálogo.

Assim, estabeleceu-se uma discussão clara entre o discurso argumentativo dos sofistas, que mediante a persuasão procuravam manipular os cidadãos, e o discurso argumentativo dos filósofos, que procuravam atingir a verdade por meio do diálogo, pois só ela importava.

A filosofia surgiu como discurso dirigido à razão, e não à emoção dos ouvintes. Essa é, aliás, a condição primeira para que a verdade possa ser comunicada. Não se trata de convencer alguém, mas de comunicar ou demonstrar algo que se pressupõe já adquirido: a verdade de que o filósofo é detentor.

Aristóteles foi o primeiro filósofo a expor uma teoria da argumentação, procurando um meio caminho entre Sócrates e os sofistas, encarando a retórica como uma arte que visava descobrir os meios de persuasão possíveis para os vários argumentos. O seu objetivo era uma comunicação mais eficaz. A retórica torna-se, assim, uma arte de falar de modo a persuadir e a convencer diversos auditórios.

É nesse quadro definido por Aristóteles que a retórica evoluiu como uma arte de compor discursos que primavam pela sua organização e beleza (estética), desvalorizando a dimensão argumentativa cultivada pelos sofistas.

Além disso, Aristóteles, Cícero e muitos outros filósofos já insistiam que o bom orador não deveria se limitar a produzir um bom discurso, deveria também estar atento a outros aspectos, como postura, impostação de voz e dicção.

A partir deste embasamento histórico e estudo é necessário redimensionar as técnicas e estratégias com o objetivo de utilizar a argumentação como mais uma ferramenta de esclarecimento e ordenação eficaz de informação.

Assim, proponho o que denominei de ‘oratória contemporânea e empática’ que objetiva o aprimoramento da performance comunicacional do homem moderno e de acordo com as suas atribuições, cargo, função e objetivos. Esta terminologia foi criada para expressar a junção da Oratória (já conhecida) e a Fonoaudiologia.

A Oratória, que deve ter como referência as necessidades do homem atual, nas suas diversas atribuições e a Fonoaudiologia, ciência que estuda a Comunicação e seus distúrbios, a qual apresenta um arcabouço teórico-prático determinante e que promove o entendimento, o aprimoramento e a possibilidade de mudança do comportamento comunicacional, com intuito de alcançar o “bem falar e o esclarecer”.

Desta forma, pode-se afirmar que além da informação e sua ordenação didática é fundamental embalar o conteúdo dito, com os principais aspectos que dão vida a transmissão dos nossos pensamentos e conhecimento, dentre eles: a voz empática, a dicção (articulação dos sons da fala), o vocabulário (recursos linguísticos favoráveis), a linguagem corporal (postura acolhedora, expressão corporal e facial, gestos representativos e indicativos, microexpressões, expressividade), indumentária (vestuário), saber ouvir e escutar, percepção e observação e sensibilidade para acolher o outro.

É fundamental reconhecer que o conceito sugerido da oratória contemporânea pode contribuir para uma argumentação diferenciada que se presta a promover a apresentação de informações com embasamento e com o propósito de contribuir para o esclarecimento do cenário e diálogo. A partir desta reflexão é possível utilizar estratégias comunicacionais balizadas com o objetivo de amenizar os conflitos, estimular uma escuta atenta, desenvolver uma comunicação não violenta (empática), aspectos hoje fundamentais para os processos de mediação, conciliação e negociação.

Assim é possível moldar a nossa argumentação diferenciada e com maestria. Mas afinal, como praticar nos dias de hoje?

Então, nos vemos no próximo artigo!!

Fonte: www.mariadocarmocarrasco.com.br

Maria do Carmo Carrasco 

Idealizadora do Projeto Advogado Comunicativo

CEO de Comunicação Corporativa e Desenvolvimento Profissional - Cop Consultoria

Fonoaudióloga Forense, Ocupacional e Empresarial - CRF.ª 5037-SP

Personal Communication Trainer - Mentory Vocal e Comunicacional

Perita em Comunicação Humana e Doenças Ocupacionais

Docente ESA-OAB/SP; AASP; MP.

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Maria do Carmo Carrasco | Idealizadora do Projeto Advogado Comunicativo.

Fonte: Da redação (Justiça em Foco), 18/05/2017.
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