Justiça em Foco

Deficiente visual atende jurisdicionados no JEF e prova que inclusão é possível

Poder Judiciário

Quarta-Feira, Dia 09 de Agosto de 2017

Quem chega ao guichê 4 do atendimento de atermação, no Juizado Especial Federal do Estado da Bahia, é atendido pelo estagiário deficiente visual José Nilson Vieira, que contrapõe as estatísticas de inclusão de deficientes e mostra que é perfeitamente possível a inserção de pessoas com essas características no mercado de trabalho.

José Nilson, 41 anos, é o primeiro estagiário de Direito com deficiência visual do Núcleo de Apoio à Coordenação (NUCOD). Há aproximadamente um ano e meio ele chegou à unidade e realiza atendimentos agendados. Ali, sua principal atividade é fazer petições relacionadas a processos contra a Caixa Econômica Federal e Correios, função que exerce com bastante competência, graças à experiência na área financeira adquirida no cargo de assistente administrativo, que ocupa há seis anos no setor de reabilitação de crédito em uma empresa privada no período da manhã.

Para efetuar o atendimento José Nilson utiliza um programa de voz instalado no computador, o NVDA (Sigla em Inglês para "Acesso Não-Visual ao Ambiente de Trabalho".), um leitor de tela que auxilia na realização das demandas. Os colegas do setor gravam ou escrevem o relato do atendimento, registram os documentos e dados pessoais e agendam uma data para retorno. Num segundo momento, José Nilson elabora o termo de pedido e confirma o retorno do jurisdicionado.

A primeira impressão do público ao presenciar o seu atendimento é de surpresa. Por mais que a sociedade esteja ciente de que deficiência física não torna o cidadão incapaz de exercer funções no mercado de trabalho, muitos ainda têm a ideia de que um deficiente não tem a capacitação profissional necessária.

“A princípio, eles não acreditam que sou tão qualificado quanto meus colegas estagiários, mas quando começam a ser atendidos ficam mais seguros, percebem que estão falando com alguém que pode dar um atendimento de qualidade. As pessoas sempre agradecem. Faço o possível para atender bem, pois sei da dificuldade do acesso à Justiça para as pessoas que aqui chegam, ansiosas para terem suas demandas resolvidas”, relata José Nilson.

Ele complementa: “O meu papel na Justiça Federal é importante para que outras portas se abram, para quando vierem outros deficientes, principalmente deficientes visuais, as pessoas já estejam mais maduras sobre como lidar com essa questão. Mais do que estar fazendo um estágio do curso de Direito que é importante para minha carreira profissional, é uma oportunidade ímpar de tentar, na medida das minhas muitas limitações, abrir portas para outros que virão posteriormente”.

Quem acompanha seu trabalho percebe a dedicação em executar as atividades e sua satisfação em ajudar ao próximo. “Eu gosto das atividades que desenvolvo e como pretendo advogar, aqui tem sido uma escola importante. Na faculdade, aprendemos o Direito teórico e aqui podemos ver na prática aquilo que aprendemos na universidade e isso é o mais importante. Vou atuar na área previdenciária e área de família. A minha expectativa é ser o melhor que eu posso, porque o mercado é muito competitivo e sendo uma pessoa deficiente, a dificuldade aumenta por conta do preconceito. Eu vou, na medida das minhas limitações, superar isso, estudando”.

O Núcleo de Recursos Humanos e o gestor do NUCOD, realizaram um excelente trabalho, não apenas para cumprir a Lei do Estágio (Lei n.11.788), mas principalmente para promover a inclusão na Justiça Federal.

“O NUCRE e o meu gestor, a princípio ficaram receosos, sem saber o que fazer para me incluir, mas aos poucos estamos fazendo uma caminhada muito boa, porque o que importa em primeiro lugar é a boa vontade. Se eles tiveram vontade de encarar esse desafio, e que não é fácil, já é meio caminho andado. O restante nós vamos nos adaptando. Aos poucos foram adequando minhas atividades ao que eu poderia realizar.”

Para Kleber Portela, diretor do NUCOD, tem sido uma experiência gratificante. Segundo ele, “nossos problemas se tornam até pequenos em comparação com as dificuldades que José Nilson enfrenta. Isso faz com que nós amadureçamos profissionalmente”.

“Inicialmente as pessoas ficam desconsertadas quando percebem que estão sendo atendidas por um deficiente visual, mas à medida que ele continua o atendimento, passam a agir com naturalidade, pois notam a desenvoltura e dedicação de José Nilson. Sua relação com os colegas do setor é respeitosa e fraternal, e diariamente, ao final do expediente, é conduzido por um dos estagiários até o ponto de ônibus.”

Kleber recorda do seu primeiro contato com José Nilson, quando o estagiário pediu-lhe que não fosse tratado de forma diferenciada ou que o subestimasse, porque se ele havia chegado até o 8º semestre de Direito foi por conta de muito esforço pessoal. “Pediu, também, que eu não fizesse nenhum tipo de reserva de atribuições para ele, já que estava aqui para aprender e, dentro das suas limitações, é isso que gostaria de fazer”.

As ações afirmativas e a inclusão das pessoas deficientes no mercado de trabalho foi seu tema escolhido para o Trabalho de Conclusão de Curso, confirmando sua luta diária por igualdade social e desejo de dias melhores no cotidiano profissional dos deficientes.

Mesmo após a Lei de Cotas, criada há 26 anos, que determina que as empresas com cem ou mais empregados devem preencher de 2% a 5% dos seus cargos com reabilitados ou deficientes, os portadores de deficiência ainda enfrentam dificuldades para conquistar um espaço.

Para José Nilson, a maior dificuldade para ingressar no mercado de trabalho é a barreira atitudinal para com os deficientes. “As outras a gente conserta. A barreira arquitetônica, por exemplo, resolve-se com uma rampa ou piso tátil, mas a barreira atitudinal, que vem do ser humano querer aceitar o outro como seu semelhante, essa é a maior barreira”.

O ex-desembargador Ricardo Tadeu da Fonseca, do TRT de Curitiba, primeiro juiz cego a trabalhar em um tribunal brasileiro, é uma referência de superação para José Nilson. ”Tenho ele como um exemplo a ser seguido. Se ele conseguiu eu também posso conseguir. Ainda que eu não queira ser juiz, mas advogado, se ele chegou ao patamar de ser um magistrado, eu também posso chegar.”

“Nós compensamos essa deficiência estudando, isso é fato. Os colegas da minha turma costumam dizer que eu sei muito, mas na verdade como eu sei que tenho dificuldade eu estudo mais. Então o resultado acaba sendo positivo por esse motivo e não porque sou melhor do que nenhum deles”, completa, com simplicidade José Nilson.

Ele conclui com uma mensagem para os deficientes que sentem receio de encarar as dificuldades. “Se as pessoas quiserem de verdade, são tão capazes quanto os demais. É preciso que lhes sejam dadas oportunidades, claro, mas as oportunidades não vão cair do céu, tem que buscar. Se a pessoa se dedicar, se tiver disciplina e dedicação, com certeza as coisas vão acontecer e qualquer pessoa pode chegar onde almeja. A superação, como li há algum tempo, não deve ser inerente à pessoa com deficiência, mas a todo ser humano. Todo ser humano deve se superar todos os dias”, finaliza José Nilson Vieira.


Fonte: Da redação (Justiça em Foco), com TRF1.
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