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Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura alerta: haverá escassez de alimentos

Por Ronaldo Nóbrega, - terça, 07 de abril de 2020
 

 FAO, na sigla em inglês para Food and Agriculture Organization, é a agência da ONU que cuida das questões alimentares em nível global. Dentre as muitas atribuições da FAO, a número 1 é erradicar a fome no mundo. Mas, para isso, é necessário que haja um intricado comércio global de alimentos que se sustenta por cadeias de insumos, maquinário, defensores agrícolas e fluxos constantes de importações e exportações.

Com a crise do novo coronavírus essa cadeia produtiva sofreu graves perdas em virtude de vários países terem paralisado grande parte de suas atividades produtivas. Mesmo aqueles países que não são produtores, invariavelmente são consumidores. A questão central é: vai faltar comida! Pelo menos foi essa a declaração conjunta dos líderes da FAO, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Mundial do Comércio no dia 01 de abril.

O alerta é bastante sério - indo ao encontro às declarações do Presidente Bolsonaro: "As incertezas geradas sobre a disponibilidade de alimentos podem desencadear uma onda de restrições à exportação [...] causando uma escassez no mercado mundial", afirmam o chinês Qu Dongyu, que chefia a FAO, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, e o brasileiro Roberto Azevêdo, líder da OMC. Para eles é "importante" garantir o comércio, "principalmente para evitar a escassez de alimentos", especialmente nos países mais pobres.

O Presidente Jair Bolsonaro está com a razão: é importante garantir o comércio. Os efeitos perversos de sustentar uma quarentena da economia são, possivelmente, a morte de pessoas por muitos outros problemas e acontecimentos que não estão sendo contabilizadas dia a dia nos noticiários como as mortes pela Covid-19. Infelizmente, o Brasil, como economia emergente, não tem reservas suficientes para manter parte do setor produtivo, do comércio e de serviços estagnados.

De acordo com a estimativa da Diretora-Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, em declaração com o diretor-geral da OMS no dia 03 de abril, estima-se que U$ 90 bilhões de dólares já tenham sido retirados de países emergentes. O que reflete o medo dos investidores que esses países não suportem a crise do coronavírus.

“Quero enfatizar [...]: que salvar vidas e proteger os meios de subsistência devem andar de mãos dadas. Não podemos fazer um sem o outro. Meu segundo ponto é sobre mercados emergentes e economias em desenvolvimento. Eles são duramente atingidos e, com frequência, têm menos recursos para se proteger contra essa dupla crise, saúde e crise econômica. Quase 90 bilhões de dólares saíram. Isso é muito mais do que durante a crise financeira global. E alguns países são altamente dependentes das exportações de commodities. Com o colapso dos preços, eles são atingidos novamente. Do mesmo modo que o vírus atinge as pessoas vulneráveis com pré-condições médicas, a crise econômica atinge as economias vulneráveis com mais força” declarou a Diretora-Geral do FMI, grifo nosso.

O Brasil é uma dessas economias emergentes que depende da exportação de commodities, pacotes de socorro econômico divulgados pelo governo são uma ação acertada, mas esse dinheiro é fruto de endividamento e não irá restabelecer a produtividade. Isto é, os auxílios a empresas são um paliativo para que elas não quebrem, quanto aos trabalhadores, sua renda não será plenamente restabelecida o que irá gerar endividamento de pessoas físicas e jurídicas em todo o país. Está na hora de pensarmos nas consequências econômicas a médio e longo prazo ao mesmo tempo em que pensamos na saúde das pessoas, como diz a diretora do FMI, essas ações têm que caminhar juntas.

ronaldo.nobrega@justicaemfoco.com.br