Educação

Coordenadora da ABED e Hélio Laranjeira rebatem comentários de Alexandre Garcia sobre Educação à Distância

Por Ana Menezes | Edição Ronaldo Nóbrega | Justiça Em Foco - segunda, 07 de setembro de 2020
 

No último dia de agosto (31/08), Alexandre Garcia publicou um vídeo em seu canal do Youtube com o título: “Quem quer comprar diploma?” No vídeo, Alexandre Garcia critica a adoção do Ensino à Distância (EAD) em tempos de pandemia.

De acordo com o jornalista, das 65 Universidades Federais apenas 6 deram aulas à distância e que é impossível esse tipo de ensino para cursos de Direito, Veterinária, Agronomia, Medicina e outros. Em tom irônico Alexandre Garcia fala: “Opa! Pera aí, à distância formar magistério? Formar professor? À distância? Quando a gente deveria pegar os melhores e encaminhá-los para o magistério”.

Em outro trecho o jornalista diz que na educação importa a qualidade e não a quantidade, para ele: “tem gente aí vendendo diploma. É fácil! Quem quer comprar diploma? Tem gente que é grande empresa multinacional, não está ligando o mínimo para o futuro do Brasil, tá ligando para o seu caixa, para o seu faturamento!”

Após ter conhecimento do vídeo, Melita Hickel rebateu os comentários de Alexandre Garcia. Atualmente, Melita Hickel é Coordenadora do Núcleo Regional da Associação Brasileira de Ensino à Distância (ABED) em Porto Alegre. O currículo de Hickel inclui Pós-doutorado na UNED, em Madrid/Espanha, Doutorado na área de Educação e Religião na Faculdade EST e Especialização em Língua Alemã na UNISINOS.

Para a pesquisadora, os comentários de Alexandre Garcia demonstram o total desconhecimento do renomado jornalista sobre a Educação à Distância (EAD). O primeiro ponto questionado por Hickel é a diferença entre Ensino Remoto e Educação à Distância.

Segundo a doutora, o ensino remoto, amplamente utilizado na atual conjuntura da pandemia do coronavírus, não é sinônimo de Educação à Distância, apesar da EAD utilizar aulas remotas, toda a concepção de um curso EAD é planejada para que o distanciamento não seja um empecilho, diferentemente do Ensino Remoto que é uma adaptação virtual ao ambiente físico da sala de aula.

Além disso, a Educação à Distância é uma modalidade reconhecida pelo Ministério da Educação: “na qual alunos e professores estão separados, física ou temporalmente e, por isso, faz-se necessária a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação. Essa modalidade é regulada por uma legislação específica e pode ser implantada na educação básica (educação de jovens e adultos, educação profissional técnica de nível médio) e na educação superior.”

Melita Hickel destaca que, embora pareça algo ‘novo’ o EAD está presente no Brasil há bastante tempo. Instituições pioneiras no segmento, como a “Rádio Monitor”, fundada em 1939, e a “Universal Brasileiro”, fundada em 1941 atuam até hoje no mercado. No panorama internacional, a doutora cita os exemplos da FernUniversität in Hagen, Alemanha; a Universidad Nacional de Educación a Distancia, da Espanha, e a Open University, do Reino Unido. Essas Universidades foram criadas para a oferta de cursos à Distância no final dos anos 60 e início dos anos 70.

No Brasil, o Ensino à Distância foi reconhecido legalmente somente em 1996 com a edição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei nº 9394/96), quando a EAD passou a fazer parte da oferta legal de Educação formal.

Desde então, a EAD veio se fortalecendo paulatinamente no Brasil com a oferta de cursos de excelente qualidade e formação de profissionais gabaritados nos mais diversos campos. Melita Hickel lamenta a visão simplista de Alexandre Garcia e a falta de conhecimento do jornalista sobre a EAD.

Para a doutora, não é justa a presunção que Alexandre Garcia faz em relação ao sistema EAD formar profissionais menos competentes ou menos capacitados. Afinal, o conteúdo programático dos cursos à distância é muito parecido com os presenciais, o que muda é apenas o ambiente no qual o aluno irá aprender as disciplinas.

Já no que se refere ao caráter da qualidade do ensino, o Presidente do Grupo Residência Educação, Hélio Laranjeira, afirma que a Educação à Distância fornece cursos tão bem ou mais qualificados que o ensino presencial pelo fato de as plataformas contarem com recursos extras como jogos interativos, perguntas e respostas (quiz) e elucidação de dúvidas personalizadas a qualquer tempo.

Além disso, Laranjeira destaca que o fato de apenas 6 Universidades Federais continuarem as aulas com ensino à distância demonstra o despreparo dos governos passados em absorver novas tecnologias que podem ser extremamente úteis no aprendizado dos alunos.

Hélio Laranjeira reitera a diferença do ensino remoto e da educação à distância. Em entrevista ao site Justiça em Foco ele afirma que: “a forma de entregar a aprendizagem não é mais aquela maneira que era ‘enfileirar’ alunos e institucionalmente ficar falando na frente [...] O ensino remoto não se parece com Educação à Distância”.

Ao tratar diretamente dos comentários feitos pelo jornalista Alexandre Garcia, Hélio Laranjeira diz: “Eu acho que o Alexandre Garcia está confundindo ensino remoto do século XIX com Educação à Distância que pode se fazer no século XXI. Eu queria muito que ele ouvisse ou me desse uma resposta [...] para eu poder ter a oportunidade de fazer uma apresentação on-line para ele e mostrar que a nossa plataforma de Educação à Distância, ela tem toda uma rota de aprendizagem e ensina com verificação, ensina com realidade aumentada, ensina com todo um conjunto de ações que fazem com que a aula do século XXI fique melhor que a aula convencional”.

Melita Hickel e Hélio Laranjeira concordam que a EAD já é uma realidade de muito sucesso no Brasil, mas que há espaço para expansão, não só na iniciativa privada, como no setor público. Além disso, a relevância dessa modalidade de ensino está bem mais perceptível, em razão da conjuntura imposta pelo novo coronavírus na qual o distanciamento é uma medida de segurança para todos.

https://www.youtube.com/watch?v=xe80TQKmU3w&t=302s