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Substituição de Ruth Bader Ginsburg é motivo de discórdia entre partidos estadunidenses

Da Redação com informações de agências. - sexta, 18 de setembro de 2020
 

Com a morte da juíza da Suprema Corte dos EUA a sua substituição já constitui mais um motivo de discórdia entre os dois partidos norte-americanos. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos é composto por nove juízes, nomeados pelo Presidente.

Ruth Bader Ginsburg morreu na sexta-feira (18/09) aos 87 anos em decorrência de um câncer de pâncreas, era um ícone feminista e progressista da mais alta corte dos EUA para questões como igualdade de gênero, imigração, aborto e casamento igualitário. 

A mais velha juíza do Supremo em funções, Ginsburg esteve 27 anos em funções. Uma voz feminista, era tida como a figura de proa dos interesses progressistas no mais alto tribunal judicial dos EUA, a única capaz de travar a onda conservadora que tem tomado a instituição.

Judia de Brooklyn
Joan Ruth Bader nasceu em Brooklyn, a 15 de março de 1933. Os pais, Celia e Nathan, viviam no bairro de Flatbush. Ela emigrou de Odessa, na atual Ucrânia, então parte do império russo, ele da Áustria. Apesar de não serem muito religiosos, os Bader fizeram questão de que a filha frequentasse a sinagoga e aprendesse os rituais judaicos.

Aluna dedicada, foi na universidade de Cornell, em Nova Iorque, que Ruth (como havia muitas Joan na turma quando era miúda, foi a mãe que sugeriu à professora chamar-lhe Ruth) conheceu Marty Ginsburg. Tinha 17 anos mas não teve dúvidas: "Conhecer o Marty foi de longe a melhor coisa que me aconteceu na vida", confessa a juíza no documentário RBG. O casamento durou 56 anos, até à morte dele em 2010, e está agora no centro do enredo do filme Uma Luta Desigual, sempre com Marty a aceitar ficar na sombra enquanto a mulher apostava na carreira.

De juíza centrista a ícone pop
Nomeada em 1980 pelo presidente Jimmy Carter para o Tribunal de Recurso do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington, Ruth Bader Ginsburg ganhou fama de centrista, votando muitas vezes ao lado dos conservadores. Uma postura que manteve nos primeiros anos no Supremo, onde chegou em 1993 por nomeação de Bill Clinton. Segunda mulher nomeada para a mais alta instância judicial dos EUA, à medida que os anos passaram as suas decisões viraram à esquerda.

Já doente, muitos questionaram-se porque não se reformou enquanto Obama estava no poder, dando hipótese ao presidente de escolher um juiz liberal para a substituir. Mas ela foi muito clara: "Enquanto conseguir fazer o meu trabalho, estarei por aqui."

E ali, no edifício de colunas brancas do Supremo, junto ao Capitólio, fez amigos. Até os mais improváveis. Como o entretanto falecido Antonin Scalia, o juiz conservador com o qual partilhou a paixão pela ópera.

A sua defesa da igualdade de direitos, o estoicismo com que argumentava, as longas pausas e o ódio à conversa fiada tornaram Ruth Bader Ginsburg uma figura adorada na América progressista. Mas a fama mundial só chegou com o meme da "Notorious RBG". Criado no Tumblr em 2013 pela estudante de Direito Shana Knikhnik, mais tarde transformado em blogue e depois em livro, este levou Ginsburg até uma nova geração de feministas, fascinadas com a paixão da juíza. "Há pessoas de todas as idades excitadas por verem uma mulher num cargo público que mostrou que, mesmo aos 85 anos, pode ser inflexível na sua dedicação à igualdade e justiça", disse à BBC Irin Common, coautora do livro Notorious RBG.

Atualmente a imagem da juíza está por todo o lado. Nos fatos de Halloween, em canecas, em T-shirts. A sua vida, inclusive a sua rotina no ginásio, inspirou o documentário RBG, nomeado para os Óscares. Do último filme da Lego aos The Simpsons, são muitas as referências pop a Ruth Bader Ginsburg.

Veja algumas citações inspiradoras da juíza americana Ruth Bader Ginsburg:

Sobre igualdade de gênero e discriminação:
- O pedestal sobre o qual mulheres foram colocadas, após uma inspeção mais detalhada, revelou-se muitas vezes uma gaiola.

- Não peço nenhum favor pelo meu sexo. Tudo o que peço a nossos irmãos é que tirem os pés de nossos pescoços [originalmente atribuída à abolicionista Sarah Grimké].

- Quando às vezes me perguntam quando haverá o suficiente [juízas na Suprema Corte dos Estados Unidos] e eu digo: 'Quando houver nove', as pessoas ficam chocadas. Mas houve nove homens, e ninguém nunca levantou uma questão sobre isso. [A Suprema Corte americana tem um total de 9 juízes]

- As mulheres pertencem a todos os lugares onde as decisões são tomadas. Não deveria ser que as mulheres sejam a exceção.

- As mulheres terão alcançado a verdadeira igualdade quando os homens compartilharem com elas a responsabilidade de criar a próxima geração.

- À medida que as mulheres alcançam o poder, as barreiras caem. À medida que a sociedade vê o que as mulheres podem fazer, à medida que as mulheres veem o que as mulheres podem fazer, haverá mais mulheres fazendo coisas, e todos nós beneficiaremos disso.

- Eu rezo para que eu possa ser tudo o que [minha mãe] teria sido se tivesse vivido em uma época em que as mulheres poderiam aspirar e alcançar e as filhas fossem estimadas tanto quanto os filhos.

Sobre direito e sua carreira:
- Tornei-me advogado por motivos egoístas. Achei que poderia fazer o trabalho de um advogado melhor do que qualquer outro.

- Quando considerado em seu extremo, quase qualquer poder parece perigoso.

- Uma constituição, por mais importante que seja, não significará nada, a menos que as pessoas anseiem por liberdade.

- Cada parte da minha vida proporcionou um respiro da outra e me deu um senso de proporção que faltava aos colegas de classe formados apenas em direito.

Sobre ser uma inspiração e sobre memória:

- Lute pelas coisas de que gosta, mas faça isso de uma forma que leve outras pessoas a se juntarem a você.

- Eu apenas tento fazer o bom trabalho que tenho da melhor maneira que posso, e realmente não penso se sou inspiradora. Apenas faço o melhor que posso.

- Ler é uma chave que abre portas para muitas coisas boas na vida. Ler moldou meus sonhos, e mais leitura me ajudou a torná-los realidade.

- [Eu gostaria de ser lembrada como] alguém que usou todo o talento que tinha para fazer seu trabalho da melhor maneira possível. E para ajudar a reparar as divisões em sua sociedade e tornar as coisas um pouco melhores por meio do uso de qualquer habilidade que ela tivesse.