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8 de março de 1857. Ops! 8 de março de 2021

Por Rejane Jungbluth Suxberger  - segunda, 08 de março de 2021
 

Por Rejane Jungbluth Suxberger 

Não é de hoje a resistência ao trabalho feminino. Sim! Estamos em 2021, mas é preciso remontar ao século XIX para entender e quem sabe comemorar o 8 de março. Naquele século, ao se consolidar no poder, a burguesia reforça a divisão de papeis e a rígida separação de atuação dos gêneros. O movimento operário se opõe ao ingresso das mulheres no mercado de trabalho. Somos tidas como rivais dos homens, além da nossa “inadequada” ocupação no espaço público. Os sindicatos fecham as portas para nós. Maridos e trabalhadores procuram proteger seus privilégios como “chefes de família” e a posse dos melhores postos. Em Nova York, no dia 8 de março de 1857, as mulheres trabalhadoras rompem o silêncio e protestam contra os baixos salários e a jornada exaustiva de trabalho. A polícia reprime o movimento com prisões e violência. O acontecimento marca a luta dessas trabalhadoras e, posteriormente, o dia 8 de março é proclamado como Dia Internacional da Mulher. O Woman’s day passou a ser comemorado a partir de 1908 pelas socialistas americanas cujo propósito era a reivindicação do direito de voto para as mulheres. Em 1910, Clara Zetkin propôs na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, a organização da celebração de um Dia Internacional da Mulher.

De lá para cá, podemos questionar o que foi feito para democratizar a sociedade no que se refere ao trabalho feminino, seja no âmbito público, seja no privado. O avanço da universalização dos direitos perpassa o desmonte das assimetrias hierárquicas e os mecanismos que sustentam a desigualdade de gênero implícita na família patriarcal. A pandemia do coronavírus escancarou o problema que desde sempre vivemos: grande parte das persistentes desigualdades de gênero estão radicadas na premissa dos cuidados, principalmente infantil, como se as mulheres fossem detentoras de uma especialização — uma espécie de privilégio natural — para o cuidado[1]. Sobre os nossos ombros se acumulam, além das incertezas de uma doença desconhecida, o trabalho doméstico e remoto. Somos prisioneiras das telas e da culpa. Para os filhos, principalmente as crianças, precisamos nos fazer ausentes mesmo estando presentes. O cansaço físico, emocional e mental nos torna mais vulneráveis a diversas doenças, inclusive à COVID-19. Muita coisa mudou desde o 8 de março do século XIX. Nossas leis promoveram em grande medida a igualdade de gênero, porém essas garantias permanecem com resultados limitados. Os processos discriminatórios se apresentam como escolhas motivadas arbitrariamente pelo gênero. A estrutura social, desenhada ao longo do tempo, segundo os interesses masculinos, permanece contribuindo para a desigualdade entre homens e mulheres. Os códigos responsáveis pela distribuição dos ônus e vantagens na vida social ratificam o poder de desigualdades naturalizado. Silvia Federici destaca o quão importante tem sido ocultar nosso trabalho doméstico. Em primeiro lugar, porque há uma quantidade incrível de trabalhos quase que gratuitos. Em segundo, porque restou garantido que as mulheres jamais se rebelassem contra ele; ao contrário, procurou-se incutir a ideia de que esse trabalho se apresenta como a melhor coisa da vida. Voltamos a viver confinadas, como ocorria há séculos. Agora, porém, seguimos com a agravante do teletrabalho e a sobrecarga do trabalho reprodutivo. A premissa de nossos papeis como pilares fundamentais do funcionamento deste sistema chamado lar foi significativamente reforçada. Este tempo de crise merece servir para a construção de uma alternativa à atual crise civilizatória. É preciso considerar a expansão do direito à assistência em tempos pós-pandêmicos para que possamos conseguir um reconhecimento abrangente dessa esfera da vida reprodutiva, sem o sexismo que persiste nesse sentido. Trata-se de uma oportunidade de mudanças, quando é necessário abandonar definitivamente o peso das mulheres na disciplina doméstica e escrever um capítulo renovado sobre a centralidade da vida na reprodução social. Que neste 8 de março, a sociedade reestruture prioridades, reveja alternativas estratégicas e estabeleça novos laços de solidariedade com as mulheres. Que nos próximos anos possamos viajar novamente no tempo e descobrir um futuro pós-pandêmico com um significado inquietante para a ordem patriarcal, no qual nos seja permitido priorizar a vida. Cuidar de quem cuida, espera-se, também deve ser tarefa política imediata, para mudar nossa realidade em crise e construir definitivamente um universo humanizado, sem o fantasma dos antigos dispositivos misóginos que nos impedem de avançar em nossos direitos.

[1] No Brasil, em 2016, as mulheres dedicaram aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais de horas do que os homens (18,1 horas contra 10,5 horas). (IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Rio de Janeiro. n.38, 2018. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_informativo.pdf)

Quando o foco são os cuidados com as crianças pequenas, a situação de sobrecarga das mulheres é ainda mais evidente. A PNAD 2015 estimou em cerca de 10,3 milhões o contingente de crianças de menos de 4 anos de idade no País, o que representava 5,1% da população residente. À época da pesquisa 83,7% das crianças de menos de 4 anos tinham uma mulher como primeira pessoa responsável por elas (IBGE, 2017) enquanto apenas 16,3% tinham homens como principal responsável. Dessas crianças, 46% estavam sob a responsabilidade de uma mulher ‘não ocupada’ e 37% delas por mulheres ocupadas. (OLIVEIRA, Anita Loureiro de. A espacialidade aberta e relacional do lar: a arte de conciliar maternidade, trabalho doméstico e remoto na pandemia de COVID-19. Revista Tamoios, v. 16, n. 1, p. 154–166, maio 2020).

Rejane Jungbluth Suxberger

Juíza de direito. Titular da Vara de Violência Doméstica de São Sebastião/DF

Mestre em Direito pelo UniCeub. Máster em gênero e igualdade pela

Universidade Pablo de Olavide – Sevilla/Espanha.

Doutoranda em Ciências Sociais na linha de gênero e igualdade pela

Universidade Pablo de Olavide – Sevilla/Espanha.