EXPRESSO

Ex-aluna da ANPR/FPJ é a primeira promotora quilombola do país

Da redação com informações da ANPR. Foto: Ricardo Stuckert - 12/04/2024
 

"Foi um momento de êxtase, transbordava de felicidade, satisfação e realização não apenas pessoal, mas de toda a minha família, dos meus pais, que não estão mais presentes fisicamente, de toda a minha ancestralidade”. A fala ainda emocionada é de Karoline Bezerra Maia, recém-empossada promotora de Justiça do Ministério Público do Pará. A ex-aluna do Projeto Identidade – iniciativa da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), implementada pela Fundação Pedro Jorge (FPJ) e que contou com apoio da Educafro - ao assumir o cargo, tornou-se a primeira promotora quilombola do país.

Por trás do nome Karoline Maia colocado na porta do gabinete da unidade do MP, na comarca de Senador José Porfirio (PA), está uma trajetória de persistência e superação de uma mulher que é a personificação de um país de desigualdades.

Qual seria o destino de uma menina, filha de quilombolas analfabetos, caçula de uma prole de seis filhos? A realidade e os planos de um futuro promissor caminhavam na contramão, mas Karoline Maia decidiu mudar o fluxo da própria história.

E mudou. Pertencente à comunidade quilombola de Jutaí, localizada no município maranhense de Monção, foi a primeira da família a ingressar e concluir o ensino superior. O passo seguinte foi conciliar o trabalho, num escritório de advocacia, e o estudo, para ser aprovada num concurso público. Foi aí que o Projeto Identidade da ANPR caiu como uma luva. A notícia de que havia chances de ganhar um curso de preparação ocorreu num momento em que sobravam sonhos e faltavam condições, principalmente, de ordem financeira.

"Conheci o projeto por meio de um post da professora e procuradora da República Nathália Mariel sobre os requisitos para seleção e fui uma das beneficiadas. O Projeto Identidade tem parte fundamental na minha aprovação, pois tivemos aula de como estudar e esquematizar os estudos com o Eduardo Gonçalves, tivemos sessões com terapeutas, aulas gravadas e ao vivo com professores voluntários. Recebi um aporte financeiro de R$ 2,5 mil, por mês, durante seis meses", relembra. A bolsa foi um desdobramento do projeto e contou com financiamento da Fundação Ford para 10 alunos, durante 6 meses.

Foi com entusiasmo e orgulho que a ANPR e, em especial, a Comissão ANPR Raça, foi informada da posse da estudante. "Não fazemos um projeto apenas por um objetivo único de aprovação, mas também pelo empoderamento e crescimento de todo um coletivo. A aprovação de uma mulher preta nos demonstra isso, quando um alcança, todo um grupo acredita que também pode alcançar, e projetos educacionais ajudam nesse caminho. Muito orgulho de ver a ANPR envolvida nessa missão", declara a coordenadora adjunta da Comissão, Nathália Mariel, que foi professora de Karoline.

A conquista representou orgulho para a ANPR e para os familiares, que testemunharam a jovem assinar o termo de posse, em um auditório lotado. A cena foi mais do que uma conquista pessoal.

“O orgulho que a gente sente é imenso por este momento. Pelo menos uma pessoa de nossa família, uma família de pretos, uma família de quilombolas. Posso até dizer que meu pai chegou a ser escravo, porque trabalhou desde os sete anos de idade. Isso impactou muito nossas vidas. E quando a gente vê que pelo menos uma pessoa conseguiu se sobressair a gente não tem palavras para resumir nossos sentimentos”, desabafa a irmã Joana Maia, logo após prestigiar a cerimônia de posse.

“Você perseverou e venceu os mais difíceis obstáculos desta vida. Por isso, obteve grande êxito nesta empreitada e, por isso, está neste lugar importante pelos seus próprios méritos. Foi muita renúncia, esforço e dedicação, mas valeu a pena, Karolzinha. Você é um grande exemplo a ser seguido. Que a justiça prevaleça sempre como rotina na sua vida”, declarou o tio Marino Maia.

Nesta nova fase da vida da jovem promotora, ficará o vazio de um abraço de um casal de pretos, quilombolas, analfabetos, que, certamente, desejaram um futuro diferente para os seis filhos. Erozino Boaventura Maia e Raimunda Bezerra Maia morreram antes de ver a filha se tornar uma doutora. É por eles e por milhares de brasileiros marginalizados e oprimidos pelas desigualdades que a promotora de Justiça Karoline Maia continuará a lutar.

“Quais os meus planos? Entrar em exercício na comarca e exercer a função com excelência para que por meio do Ministério Público sejam garantidos os direitos sociais em especial da população quilombola, indígena e tradicionais”, finaliza a membra do MP do Pará.

Projeto Identidade

O projeto encontra-se em fase de reformulação. O objetivo da Associação Nacional dos Procuradores da República - em parceria com a Fundação Pedro Jorge e a Educafro, com iniciativas como essa, é promover maior diversidade racial nos quadros do MPF e de outras instituições.

Inclusive, há um mês, a ANPR Raça requereu à Procuradoria-Geral da República a implantação de um projeto de capacitação de pessoas negras para o ingresso nos quadros do Ministério Público Federal.