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Governança multi-stakeholder para enfrentamento de desafios sistêmicos

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Claudia Pitta
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por Claudia Pitta

A governança tradicional desenvolveu-se inicialmente para proteger investidores, ampliando-se depois para objetivos de longo prazo da empresa ou organização e, mais recentemente, para atender à responsabilidade dessas perante um espectro amplo de stakeholders.

As estruturas, regras e processos da governança tradicional foram e seguem sendo relevantes para estabelecer direção e controle nas organizações. 

Esses mecanismos, no entanto, não foram desenhados para resolver desafios complexos e sistêmicos — como mudanças climáticas, transição energética, governança da inteligência artificial e combate à desinformação, por exemplo. O enfrentamento de questões dessa natureza e magnitude depende da coordenação entre múltiplos atores, com capacidades, incentivos e horizontes distintos. 

A governança é chave para o enfrentamento desses e outros grandes desafios da atualidade, porém é preciso desenvolver e aprender a operar modelos de governança compatíveis com esses desafios - modelos de governança multi-stakeholder. 

Nesses contextos, o objetivo central da governança deixa de ser a preservação da organização no longo prazo e passa a ser a orquestração da ação coletiva em torno de problemas que afetam, ainda que de diferentes formas, uma multiplicidade de stakeholders.

Em termos simples, trata-se de desenhar estruturas e processos que integrem, de forma efetiva, diferentes setores — iniciativa privada, poder público, academia e sociedade civil — não apenas para ouvir, mas para construir conjuntamente caminhos possíveis.

Não se trata de substituir a ação estatal, mas de reconhecer que, mesmo esferas públicas mais maduras e funcionais não têm a capacidade de, sozinhas, oferecer soluções para as questões complexas aqui tratadas.

Há que se reconhecer, no entanto, que a construção coletiva não é tarefa trivial - sobretudo em tempos de divisão social extrema e falta de confiança nas instituições. 

Não basta reunir diferentes atores ao redor da mesma mesa. É preciso desenhar novas estruturas, processos e regras que viabilizem e fomentem a colaboração, com algumas características fundamentais:

  • representativas e inclusivas, sem se tornarem excessivamente formais e burocráticas;
  • capazes de construir convergência entre perspectivas e interesses potencialmente conflitantes;
  • aptas a combinar capacidades e informações dispersas;
  • e, sobretudo, aptas a criar um ambiente de confiança mínima que torne a colaboração possível.

Essa abordagem vem sendo defendida, entre outros, pelo Fórum Econômico Mundial, que tem destacado o papel das parcerias multi-stakeholder na viabilização de respostas mais eficazes para desafios globais. A premissa, já colocada aqui, é simples: problemas sistêmicos não se resolvem por atuação isolada.

A experiência recente da CoalizãoRS ajuda a ilustrar esse desafio na prática.

Estruturada no contexto da reconstrução após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, a iniciativa reúne setor produtivo, universidades, organizações da sociedade civil e o poder público em torno de um objetivo comum: estruturar uma agenda permanente de adaptação e resiliência climática.

Para viabilizar projetos, assegurar transparência e credibilidade de informações e influenciar políticas públicas, a CoalizãoRS busca consolidar-se como um espaço institucional capaz de integrar esforços que, até então, operavam de forma dispersa e desconectada.

Para isso, a iniciativa vem gradativamente desenvolvendo estruturas decisórias,  consultivas e executivas, que combinam gestão profissional com um amplo engajamento voluntário dos membros dos órgãos de governança. Desenvolve capacidades técnicas, cria comitês e grupos de trabalho que qualificam e legitimam ações. Gerencia riscos e oportunidades, de modo a garantir sua longevidade. Estabelece regras, processos e fomenta uma cultura de integridade, transparência, accountability, equidade, independência e apartidarismo — condições essenciais para que a iniciativa não seja capturada por interesses específicos ou agendas de curto prazo.

Tudo isso com vistas a uma finalidade maior, que é premissa fundamental de qualquer movimento multi-stakeholder: a construção de um ambiente de confiança entre atores que não necessariamente compartilham agendas, interesses ou visões de mundo. Sem confiança, não há colaboração.
E sem colaboração, não há resposta viável para problemas complexos e sistêmicos.

É a boa governança - composta por estruturas, regras, processos e princípios de conduta -, aliada a entregas reais e concretas, profissionalismo na condução das atividades e resiliência para superar obstáculos, que assegura que coalizões criadas para enfrentar grandes questões da atualidade não se reduzam a arranjos bem-intencionados, porém frágeis e de vida curta.

Os desafios são imensos. A governança não elimina conflitos, nem simplifica decisões. Mas cria condições para que decisões mais robustas possam emergir — não apesar da diversidade, mas a partir dela. 

Em um mundo marcado por interdependência e complexidade crescentes, a governança oferece caminhos, mas não fórmulas mágicas. 

Cooperar em direção a objetivos comuns sempre dependerá, em última instância, do comportamento humano - individual e coletivo. A governança multi-stakeholder pode desenhar contextos que fomentam esses comportamentos, servindo como meio para construção de possibilidades para um futuro melhor.

*Claudia Pitta é membro do Conselho de Administração do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), consultora e professora de Ética Organizacional e ESG e fundadora da Evolure Consultoria.

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