
Ronaldo Nóbrega | Editor do portal Justiça em Foco. Jornalista e memorialista, com quase três décadas de atuação na imprensa.
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Congressistas brasileiros, acordem: acidente elétrico não é fatalidade. É negligência com tomada, fio, disjuntor, fiscalização e vida humana.
O Anuário 2026 da Abracopel, Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade, mostra que, entre 2013 e 2025, o país registrou mais de 21 mil acidentes de origem elétrica, com mais de 9 mil mortes. É muita gente para uma estatística. É uma cidade inteira desaparecendo em silêncio, eletrocutada pela precariedade, pela gambiarra, pela economia burra e pela falta de fiscalização.
E há um agravante: os números são apenas parte da realidade. A própria Abracopel alerta para a subnotificação. Ou seja, o quadro pode ser pior. No Brasil, até a tragédia entra na informalidade.
Os choques elétricos lideram o campeonato macabro. Foram 11.370 registros em 13 anos, o equivalente a 54% dos acidentes de origem elétrica. Também são os que mais matam: 8.382 óbitos no período. A média é de aproximadamente 645 mortes por ano, ou 1,8 morte por dia. A letalidade chega a 74%. Em bom português: quando o choque vem, muitas vezes não há segunda chance.
Os incêndios de origem elétrica formam o outro lado do desastre. Representam 41% dos acidentes, com 8.729 vítimas entre 2013 e 2025. A taxa média de letalidade é menor, em torno de 7%, mas o crescimento assusta. Só em 2025 foram registrados 1.304 incêndios, um aumento acumulado de 552% em treze anos. É recorde. Mas, naturalmente, continuamos discutindo a tomada torta, o benjamim sobrecarregado, o fio barato e o disjuntor que “aguenta mais um pouco”.
Não aguenta.
Há ainda os acidentes por descargas atmosféricas, os raios, responsáveis por 5% dos casos, com 1.035 vítimas no período e letalidade média de 50%. A partir de 2023, a metodologia passou a incluir também perdas patrimoniais e de animais, o que explica parte do aumento registrado naquele ano. Em 2024 e 2025, porém, houve queda nas mortes, chegando ao menor patamar desde 2013. Talvez um raro sinal de que informação e prevenção ainda produzem algum efeito civilizatório.
Mas o ponto central do anuário não está apenas nos números. Está no diagnóstico.
Acidente elétrico não é castigo divino. Não é azar. Não é obra do destino. É, em grande parte, consequência de instalações mal projetadas, materiais de baixa qualidade, fios desbitolados, dispositivos de proteção mal dimensionados, conexões improvisadas, adaptadores empilhados e ausência de profissionais qualificados.
O país que quer falar de transição energética, inteligência artificial, data centers e indústria 4.0 ainda convive com residências onde a instalação elétrica parece saída de um museu da irresponsabilidade.
A Abracopel acerta ao lembrar que prevenção exige projeto técnico, execução correta, materiais certificados, fiscalização e conscientização. Parece óbvio. Mas no Brasil o óbvio precisa ser repetido até virar política pública.
No fim, a conta da gambiarra chega. Às vezes vem na forma de apagão doméstico. Às vezes, de incêndio. Às vezes, de morte.
E aí descobrimos, tarde demais, que segurança elétrica não é detalhe de engenharia. É assunto de vida ou morte.