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“Adversário não é inimigo”: Sarney faz alerta sobre os rumos da política brasileira

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Por Ana Menezes
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Homenageado com o Troféu Deusa da Justiça, o ex-presidente diz que democracia exige convivência entre divergentes e alerta para transformação do adversário político em inimigo.

O ex-presidente José Sarney fez um alerta sobre a radicalização do ambiente político brasileiro e a deterioração do diálogo entre posições divergentes durante a cerimônia em que foi homenageado com o Troféu Deusa da Justiça, na quarta-feira, 26 de agosto, no Grand Mercure Brasília, na capital federal.

Aos 96 anos e depois de uma trajetória que atravessa mais de sete décadas da vida pública brasileira, Sarney recebeu a homenagem das mãos de Ronaldo Nóbrega, chairman do Grupo Justiça em Foco. Em seu discurso, porém, voltou os olhos para o presente e chamou a atenção para um fenômeno que considera especialmente perigoso para a democracia: a transformação do adversário político em inimigo.

“Eu nunca pensei que pudéssemos ver nosso adversário como inimigo”, afirmou.

A declaração sintetizou uma das principais preocupações apresentadas por José Sarney ao analisar o atual ambiente político do País.

Para o ex-presidente, divergência, oposição e disputa pelo poder fazem parte da democracia. O problema começa quando desaparece o reconhecimento da legitimidade de quem pensa diferente.

“Durante toda a minha vida pública, que é uma vida longa, tenho tido essa visão de que a política não pode transformar os adversários em inimigos”, disse.

Sarney falou a partir da experiência de quem acompanhou diferentes períodos da República e conviveu com governos, oposições e crises institucionais. Em sua avaliação, a política pressupõe o contraditório. Governo e oposição podem defender projetos antagônicos, disputar eleições e travar embates duros, mas precisam permanecer dentro de um espaço comum de convivência democrática.

O alerta ganha peso pela própria trajetória do ex-presidente. Sarney assumiu a Presidência da República em 1985, após a doença e a morte de Tancredo Neves, em circunstâncias de grande incerteza política. Coube a ele conduzir o País nos primeiros anos da Nova República e durante o processo que levou à Constituição de 1988.  

Quatro décadas depois, Sarney identifica um risco de natureza diferente. Se naquele período o desafio era assegurar a passagem de um regime militar para um governo civil e preservar a transição democrática, hoje uma de suas preocupações está na capacidade da própria política de conviver com a diferença. 

Quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, o confronto deixa de ocorrer apenas no campo das ideias. O diálogo perde espaço, o compromisso político se torna mais difícil e a polarização passa a interferir no funcionamento das instituições. 

É justamente nesse ponto que a manifestação de Sarney ultrapassa a memória de seu período no Palácio do Planalto. Sua advertência está dirigida ao Brasil de hoje.

A democracia, na visão apresentada pelo ex-presidente, não exige concordância. Exige que lados opostos reconheçam que ambos possuem direito de participar do jogo democrático. 

A declaração marcou seu pronunciamento durante o jantar solene promovido pelo Justiça em Foco em comemoração ao Mês da Advocacia. Sarney recebeu o Troféu Deusa da Justiça em reconhecimento à trajetória pública e à contribuição para a redemocratização brasileira. 
 
A homenagem também colocou frente a frente duas imagens separadas por quatro décadas: o presidente que participou da construção da Nova República e o homem público que, aos 96 anos, observa os conflitos da democracia contemporânea.

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