
Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista. Escreve sobre o Judiciário, o Legislativo, tecnologia, economia e temas de interesse público. É Chairman do Grupo de Comunicação Justiça em Foco, atuou por 12 anos como consulente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foi autor da Consulta nº 1.185/2005, que impulsionou o debate sobre o fim da verticalização partidária, posteriormente consolidado pela Emenda Constitucional nº 52/2006.
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Em momentos diferentes e diante de plateias distintas, José Sarney e João Doria chegaram praticamente ao mesmo diagnóstico sobre o ambiente brasileiro: o país precisa reaprender a conviver com a divergência.
Aos 96 anos, durante homenagem promovida por Ronaldo Nóbrega, chairman do Grupo Justiça em Foco, em Brasília, no fim de agosto de 2026, Sarney chamou atenção para um fenômeno que considera particularmente perigoso para a democracia: a transformação do adversário político em inimigo.
“Eu nunca pensei que pudéssemos ver nosso adversário como inimigo”, afirmou o ex-presidente.
A frase ganha peso pela trajetória de quem atravessou mais de sete décadas da vida pública brasileira e esteve no centro da transição democrática dos anos 1980. Para Sarney, disputa política, oposição e divergência são elementos naturais de qualquer democracia. O problema começa quando desaparece o reconhecimento da legitimidade de quem pensa diferente.
“Durante toda a minha vida pública, que é uma vida longa, tenho tido essa visão de que a política não pode transformar os adversários em inimigos”, disse.
Poucos dias depois, já no início de setembro, em outro contexto, João Doria apresentou uma advertência semelhante ao falar sobre os 25 anos do Fórum Empresarial LIDE.
“O LIDE foi criado há 25 anos sem nenhuma inspiração política e longe de visões partidárias e ideológicas. Precisamos da isenção e da capacidade de promover pontes, de permitir que o diálogo se sobreponha ao conflito. Ninguém ganha no conflito, todos perdem”, afirmou.
As duas falas partem de experiências distintas, mas desembocam no mesmo ponto.
Sarney fala a partir da política institucional. Doria, da relação entre empresários, investidores e poder público. Ambos, porém, tratam de um problema que ultrapassa partidos e governos: a erosão dos espaços de diálogo.
No caso de Sarney, o alerta carrega forte peso histórico. Ele assumiu a Presidência da República em 1985, após a doença e a morte de Tancredo Neves, e conduziu o país durante os primeiros anos da Nova República e no processo que resultou na Constituição de 1988.
Quatro décadas depois, sua preocupação está menos na transição entre regimes e mais na capacidade da própria democracia de conviver com suas diferenças internas.
Doria, por sua vez, associa o diálogo a uma agenda prática de desenvolvimento. Ao longo de 25 edições, o LIDE reuniu presidentes, ministros, governadores, parlamentares, magistrados, economistas e empresários para discutir infraestrutura, reformas, inovação, segurança jurídica, investimentos e competitividade.
A mensagem, nesse caso, é também pragmática: sem ambiente institucional previsível e sem capacidade de diálogo, o conflito político pode contaminar decisões econômicas, investimentos e a própria confiança no país.
Há uma linha clara que une as duas advertências.
Sarney afirma que o adversário não pode virar inimigo.
Doria acrescenta que o conflito permanente não produz vencedores.
Num Brasil em que a polarização frequentemente transforma divergência em hostilidade, as duas frases soam menos como declarações protocolares e mais como um recado direto à classe política, ao empresariado e às instituições.
A democracia sobrevive ao conflito de ideias.
O que ela não suporta é o abandono do diálogo.
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